Há alguns dias antes do segundo turno, decidi tornar público meu voto: Haddad.

Demorei tanto por que não tenho orgulho dessa escolha. Preferiria um segundo turno entre praticamente qualquer um dos outros candidatos do que entre Bolsonaro e Haddad.

Minhas razões para votar no Haddad são de dois tipos: simbólicas e baseadas na mensagem geral por trás de suas propostas.

A razão simbólica eu não vou desenvolver aqui em detalhes, mas sugiro a leitura do texto do Papo de Homem do qual extraio a seguinte síntese:

Compreendemos a profunda desilusão com o PT e o sistema político como um todo, da qual compartilhamos.
Não consideramos Bolsonaro um monstro. Nem achamos que ele sai pela rua agredindo fisicamente mulheres ou pessoas gays.
Ele provavelmente deseja que o Brasil prospere, assim como Haddad, Manuela d'Ávila e demais candidatos.
Mas o consideramos inadequado para ser presidente de nosso país. Não queremos ser governados por um homem que ameaça tomar o poder militarmente e se orgulha de homenagear torturadores.

Apesar de simbólica, essas razões são sim muito importantes. Além disso, esse texto do Nexo mostra como Haddad fez uma auto-crítica a alguns pontos relevantes contra o seu partido ao longo da sua campanha. Mais uma vez, um gesto simbólico, mas não por isso menos importante.

No que se refere a propostas, não concordo com todas as de Haddad (por exemplo, discordo de continuarmos a ampliar o plano de interiorização das universidade públcias sem antes avaliar o êxito das tentativas em andamento) e nem discordo de todas as do Bolsonaro (por exemplo, concordo com a expansão do ensino técnico). Uma análise item a item é difícil, lenta e pode se tornar extremamente técnica, mas há duas mensagens que saltam do conjunto das propostas de Bolsonaro que considero muito ruins.

  1. Educação: Bolsonaro parece acreditar em políticas de privatização como solução para a educação brasileira, como os vouchers ("vales" que os pais podem usar pra pagar escola particular para os filhos). A experiência americana mostra que essa estratégia é um fiasco. Além disso, uma olhada nos líderes em educação no mundo mostra que uma das poucas semelhanças é a dominância quase absoluta da educação pública e igual para todos. Em diversos casos, como Finlância e Coréia do Sul, o governo chegou a estatizar a educação para garantir que todos tivessem acesso e participassem da mesma educação. Portanto, não voto em quem defende ideias privatizantes para a educação.
  2. Impostos: como já discuti neste post, o Brasil cobra impostos regressivamente, ou seja, quem ganha menos paga proporcionalmente mais. Isso é resultado, essencialmente, da forte carga tributária indireta (imposto embutidos em produtos e serviços) quando comparadaà carga direta (imposto sobre renda, propriedades e bens). Bolsonaro já defendeu publicamente mudanças que devem tornar o nosso sistema tributário ainda mais regressivo (como cria aliquota única de 20% para o imposto de renda), enquanto Haddad tem propostas que visam tornar o sistema mais justo (como criação de novas aliquotas para o IR, taxação de lucros e dividendos e imposto sobre herança progressivo). Ponto pro Haddad.

Obviamente propostas não são garantias de ações após o resultado das eleições, mas elas explicitam visões de mundo e alinhamentos e, com base nos dois aspectos acima, eu me alinho muito mais ao Haddad do que ao Bolsonaro em dois pontos que considero cruciais para o Brasil. Portanto, meu voto vai para o Haddad.

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Date: 24 Oct 2018

Author: Leonardo Barichello

Tags:

português opinião

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