Eu me sinto meio desconfortável escrevendo sobre os protestos planejados para amanhã (dia 16 de agosto de 2015) por estar morando fora do Brasil, em uma posição aparentemente privilegiada, mas gostaria de deixar minha opinião para aqueles que tiverem interesse em ler.

Pelos idos do ano 2000, eu participei ativamente de plebliscitos não-oficiais sobre temas que eram relevantes naquela época, como a dívida externa brasileira e a criação da ALCA. Também fiz campanha (pessoal, sem me filiar a partidos) para candidatos com os quais me identificava de verdade (foram poucos).

Estou dizendo isso pra deixar claro que sou totalmente a favor da manifestação de opinião.

Quaisquer que tenham sido os interesses por trás do Impeachment do Collor, acredito sim que o fato de as pessoas terem manifestado suas opiniões nas ruas fez diferença (assim como nas manifestações pré-Golpe de 64).

Nesse sentido, apoio sim a ocorrência das manifestações. Mostrem sim o que acham disso ou daquilo. Deste ou daquele.

Agora vamos aos motivos da manifestação.

Se você que está lendo me conhece, deve saber que eu me alinho à esquerda do ponto de vista político. Isso significa, pelo menos para mim, que igualdade social é mais importante do que desenvolvimento econômico. Na verdade, a relação entre eles, pra mim, deveria ser: o fim é a igualdade social e desenvolvimento econômico faz parte dos meios.

Portanto, é natural que eu tenha uma simpatia maior pelo PT do que pelos partidos mais liberais. Por um lado, que fique claro que não estou satisfeito com o PT já faz tempo (não votei em Lula-Dilma em todas as últimas quatro eleições). Por outro, acho sim que houveram avanços importantíssimos no Brasil nas gestões do PT.

Exemplos? O Ciência sem Fronteiras foi muito mal implementado, já o Bolsa Família foi um grande acerto. Os acordos políticos do PT me dão nojo, mas a transparência da esfera federal é admirável.

Foi aprofundar um pouco o último ponto.

Recentemente, a Unicamp abriu os salários dos professores e a Folha de São Paulo apontou a existência de um bom número de salários acima do teto. A discussão sobre merecimento ou não desses salários não vem ao caso. O que me deixou mais indignado foi a necessidade de a Folha ter que ter entrado com ação na justiça para ter acesso aos valores. Como assim? Trata-se de dinheiro público. Qual é a justificativa para deixá-los fechados? Nenhuma me convenceu até agora.

Nas universidades federais, todos os gastos podem ser consultados online no Portal da Transparência.

Outro exemplo: até agora a Sabesp não abriu os contratos com as empresas que consomem grandes volumes de água sob a alegação de que se trata de "segredo comercial". Uma empresa pública se nega a mostrar os valores de contratos firmados com ela durante uma crise sem precedentes e isso não incomoda ninguém?

Mais um exemplo? O site do tribunal de contas de Minas Gerais que saiu do ar e voltou dias depois sem os dados que poderiam comprometer a hedoneidade de Aécio Neves durante a campanha presidencial.

Na minha opinião, a falta de transparência é muito mais revoltante do que aquilo que estão chamando de "estelionato eleitoral da Dilma". Transparência permite análise que pode, caso haja motivo, virar investigação. Sem transparência, nem sabemos o que está acontecendo (de errado e de certo).

O que eu quero dizer com tudo isso?

Protestem! Se a Dilma cair, que caia. Mas não achem que ela (ou o PT) é a grande fonte dos males do país.

About this post

Date: 15 Aug 2015

Author: Leonardo Barichello

Tags:

opinião português política


Related posts:
Porque a CPMF é uma péssima idéia
A arrecadação de impostos no Brasil