Sobre os protestos do dia 16-08-2015

15 Aug 2015 / Leonardo Barichello

Eu me sinto meio desconfortável escrevendo sobre os protestos planejados para amanhã (dia 16 de agosto de 2015) por estar morando fora do Brasil, em uma posição aparentemente privilegiada, mas gostaria de deixar minha opinião para aqueles que tiverem interesse em ler.

Pelos idos do ano 2000, eu participei ativamente de plebliscitos não-oficiais sobre temas que eram relevantes naquela época, como a dívida externa brasileira e a criação da ALCA. Também fiz campanha (pessoal, sem me filiar a partidos) para candidatos com os quais me identificava de verdade (foram poucos).

Estou dizendo isso pra deixar claro que sou totalmente a favor da manifestação de opinião.

Quaisquer que tenham sido os interesses por trás do Impeachment do Collor, acredito sim que o fato de as pessoas terem manifestado suas opiniões nas ruas fez diferença (assim como nas manifestações pré-Golpe de 64).

Nesse sentido, apoio sim a ocorrência das manifestações. Mostrem sim o que acham disso ou daquilo. Deste ou daquele.

Agora vamos aos motivos da manifestação.

Se você que está lendo me conhece, deve saber que eu me alinho à esquerda do ponto de vista político. Isso significa, pelo menos para mim, que igualdade social é mais importante do que desenvolvimento econômico. Na verdade, a relação entre eles, pra mim, deveria ser: o fim é a igualdade social e desenvolvimento econômico faz parte dos meios.

Portanto, é natural que eu tenha uma simpatia maior pelo PT do que pelos partidos mais liberais. Por um lado, que fique claro que não estou satisfeito com o PT já faz tempo (não votei em Lula-Dilma em todas as últimas quatro eleições). Por outro, acho sim que houveram avanços importantíssimos no Brasil nas gestões do PT.

Exemplos? O Ciência sem Fronteiras foi muito mal implementado, já o Bolsa Família foi um grande acerto. Os acordos políticos do PT me dão nojo, mas a transparência da esfera federal é admirável.

Foi aprofundar um pouco o último ponto.

Recentemente, a Unicamp abriu os salários dos professores e a Folha de São Paulo apontou a existência de um bom número de salários acima do teto. A discussão sobre merecimento ou não desses salários não vem ao caso. O que me deixou mais indignado foi a necessidade de a Folha ter que ter entrado com ação na justiça para ter acesso aos valores. Como assim? Trata-se de dinheiro público. Qual é a justificativa para deixá-los fechados? Nenhuma me convenceu até agora.

Nas universidades federais, todos os gastos podem ser consultados online no Portal da Transparência.

Outro exemplo: até agora a Sabesp não abriu os contratos com as empresas que consomem grandes volumes de água sob a alegação de que se trata de "segredo comercial". Uma empresa pública se nega a mostrar os valores de contratos firmados com ela durante uma crise sem precedentes e isso não incomoda ninguém?

Mais um exemplo? O site do tribunal de contas de Minas Gerais que saiu do ar e voltou dias depois sem os dados que poderiam comprometer a hedoneidade de Aécio Neves durante a campanha presidencial.

Na minha opinião, a falta de transparência é muito mais revoltante do que aquilo que estão chamando de "estelionato eleitoral da Dilma". Transparência permite análise que pode, caso haja motivo, virar investigação. Sem transparência, nem sabemos o que está acontecendo (de errado e de certo).

O que eu quero dizer com tudo isso?

Protestem! Se a Dilma cair, que caia. Mas não achem que ela (ou o PT) é a grande fonte dos males do país.

Leminskanções

27 Jul 2015 / Leonardo Barichello

Já faz um tempo que, buscando informações sobre a obra de Paulo Leminsky na internet, trombei com o álbum Leminskanções (disponível para download gratuito no site). Depois de ouvir esparsamente as faixas que eu já conhecia (na voz de outros intérpretes), comecei a dar atenção ao álbum completo e gostei muito do material!

A banda (montada especialmente para esse projeto) é boa. Os arranjos não são difíceis, mas também não são óbvios. Para os meus ouvidos, soam muito como os descendentes menos marginais da Vanguarda Paulistana, como Tulipa Ruiz, Terno, Blubell, etc. Mas o diferencial do álbum está mesmo nas letras. Várias delas são realmente boas, como Diversonagens Surpersas:

Ao contrário do que se poderia imaginar, não se trata de poemas musicados, mas de letras concebidas por Leminsky para serem músicas. Inclusive, algumas delas já tinham sido gravadas por outros artistas como Verdura (por Caetano Veloso), Dor Elegante (por Itamar Assumpção e Zélia Duncan), Luzes (por Arnaldo Antunes) entre outras.

Com certeza é um álbum que vale a pena ouvir.

A arrecadação de impostos no Brasil

03 Jun 2015 / Leonardo Barichello

Esses dias vi um post no Facebook da Socialista Morena sobre uma notícia do ano passado que mostrava que as pessoas nas faixas de salário mais baixas arrecadavam mais imposto. O resumo dos dados está na tabela abaixo.

tabela

Acontece que a análise tem um furo (e vários comentaristas de Facebook descartaram as conclusões ao notarem isso), pois se baseia em montantes absoluto. O argumento seria mais ou menos o seguinte: é óbvio que a faixa mais baixa arrecada mais, ela é muito maior (em número de pessoas) do que as demais. De fato, o argumento está correto.

Porém, com um pouquinho de Matemática a gente deixa essa tabela mais completa.

Primeiro, adicionei uma coluna com um salário médio de cada faixa (considerei o valor intermediário com base no salário mínimo da época). Depois, adicionei o número total de pessoas em cada faixa (considerando uma pouplação total igual a 200 milhões). Em seguida, dividindo o total de impostos arrecadados por cada faixa pelo total de pessoas, criei a coluna "Média de impostos pagos por uma pessoa". O resultado é a tabela abaixo.

tabela 2
(desculpem pela troca de ponto por vírgula, culpa da notação inglesa)

Agora vem o passo importante. Como esses números foram calculados com base na arrecadação até o dia 12 de Agosto de 2014 (deste o começo do ano), calculei o salário médio de cada faixa multiplicando a segunda coluna por 7,3 (referente ao número de meses que tinha passado) e calculei qual a porcentagem desse salário foi pago em impostos. Eis os valores na tabela abaixo.

tabela 3
(a última linha está sem valor na última coluna porque não me parece coerente estimar o salário médio dela, por se trata de um valor ilimitado superiormente na primeira coluna da tabela)

Note que a porcentagem diminui a medida que a faixa salarial aumenta. Como interpretar isso? As pessoas que recebem salários menores pagam proposcionalmente mais impostos do que as que recebem salários maiores. A diferença percentual pode parecer pequena, mas essa inversão lhe parece razoável?



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