Ability setting na Inglaterra

29 Aug 2016 / Leonardo Barichello

Quando comecei meu doutorado na Universidade de Nottingham, em 2014, eu não sabia que a maioria das escolas inglesas agrupava os estudantes de acordo com a sua "habilidade" nas turmas de Matemática. Assim como eu não sabia, imagino que vários brasileiros não saibam também. Por isso este post. Nele, vou explicar como essa prática funciona com base em dois artigos e minha experiência em uma escola localizada em Nottingham.

A ideia por trás do ability setting (termo que manterei em inglês para reforçar que me refiro à prática comum na Inglaterra) é a de que agrupar (setting) os estudantes de acordo com notas obtidas em uma prova (supostamente ability) é benéfico para professores e estudantes. Documentos oficiais do ministério da educação e orgãos relacionados reforçam que, dessa forma:

  • os professores podem preparar aulas mais adequadas ao nível de seus estudantes;
  • os estudantes receberão instrução mais adequada ao seu nível de conhecimento.

Essa prática é especialmente comum em matemática e ocorre com mais frequência na escola secundária (dos 11 aos 16). Estimativas conservadores apontam algo em torno de 71% para a porcentagem de estudantes nessa faixa etária agrupados dessa maneira para as aulas de Matemática.

Em teoria, até pode fazer sentido. Porém, os problemas começam a aparecer quando olhamos para o que de fato vem ocorrendo nas escolas. Dunne et al (2011) mostra que. embora professores e coordenadores afirmem que a nota obtida em avaliações anteriores é o único critério utilizado para alocar estudantes:

social class was a significant predictor of set placement, such that pupils from lower socio-economic backgrounds had a higher probability of being placed in lower sets irrespective of prior attainment. Conversely, pupils from higher socio-economic status backgrounds were more likely to be assigned to higher sets and less likely to be assigned to lower sets.

E o mais importante: essa conclusão vale mesmo quando a análise estatística considera a nota obtida em avaliações anteriores.

Em um texto mais recente, Francis et al (2015), baseados em uma longa revisão de literatura sobre o tema, concluem que “the evidence suggests that overall these practices are not of significant benefit to attainment, with a negative impact for lower sets and streams”. Entretanto, mesmo assim, a prática é incentivada pelo govenrno e (segundo pesquisas) apoiada por professores.

Os autores tentam explicar esse aparente conflito (ou incapacidade das pesquisas de influenciar a opinião pública) através de uma análise do discurso inglês acerca de tópicos como educação e inteligência.

Se este post foi suficiente para atrair seu interesse para o tópico, sugiro a leitura da análise feita por Francis et al (2015).

Em conclusão, enquanto alguns países (como a Suécia) proíbem legalmente o ability settings, a INglaterra segue convicta da sua eficácia, mesmo com todas as evidências apontando que a prática não é benéfica. Eu, paricularmente, não me oporia à prática em princípio (acredito que, de fato, os dois benefícios citados no começo deste post podem ocorrer) mas, depois de conhecer a realidade inglesa, levantaria vários "poréns" e ficaria especialmente atento ao efeito discriminatório a que essa prática pode levar.

Referências

Dunne, M., Humphreys, S., Dyson, A., Sebba, J., Gallannaugh, F., & Muijs, D. (2011). The teaching and learning of pupils in low-attainment sets. The Curriculum Journal, 2 (4), 37–41.

Francis, B., Archer, L., Hodgen, J., Pepper, D., Taylor, B., & Travers, M. C. (2015). Exploring the relative lack of impact of research on ‘ability grouping’ in England: a discourse analytic account. Cambridge Journal of Education, 1-17.

Artigo: Towards a experimental problem solving in mathematics using coding

11 Jan 2016 / Leonardo Barichello

Artigo: The movement towards a more experimental approach to problem solving in mathematics using coding (International Journal of Mathematical Education in Science and Technology)

Abstract: motivated by a problem proposed in a coding competition for secondary students, I will show on this paper how coding substantially changed the problem-solving process towards a more experimental approach.

Nesse texto, eu relato a experiência de discussão e resolução de um problema da Olimpíada Brasileira de Informática com um estudante do Ensino Fundamental.

Essa discussão me chamou a atenção pelo fato da nossa (minha e do aluno em questão) abordagem ao problema ter sido fortemente experimental e, eu sugiro, que isso se deveu ao fato de termos à disposição a possibilidade de criar códigos que pudessem testar as nossas hipóteses a medida que as criávamos. Assim, eu sugiro que o uso de programação pode trazer benefícios interessantes para o ensino de Matemática que vão além do desenvolvimento do pensamento computacional per si.

Uma experiência com KTurtle e probabilidade

16 Nov 2015 / Leonardo Barichello

O artigo Relato De Uma Experiência Com O Software KTurtle Na Simulação De Problemas Envolvendo Probabilidade relata uma série de aulas com alunos do Ensino Médio em que utilizamos o Kturtle para programar simuladores para problemas de probabilidade cuja interpretação, pelo menos à primeira vista, contraria a intuição.

Apesar de não ser um software muito conhecido, o Kturtle oferece um ambiente de programação baseado nos movimentos de uma tartaruga sobre uma tela plana. Mas além de permitir o desenho de padrões geométricos, o software também oferece quase todos os recursos de linguagens de programação convencionais, como condicionais, loop, variáveis e operações aritméticas. Com esses recursos, juntamente com o gerador de números aleatórios, é possível criar simuladores para experimentos aleatórios simples, como o lançamento de dados e moedas, ou mais sofisticados, como para o problema de Monty Hall.

No texto acima, eu apresento a experiência com o intuito de mostrar como programação de computadores pode ser utilizada no ensino de probabilidade e, reversamente, como probabilidade pode abrir portas para o ensino de programação de computadores.

Um ponto relacionado a essa série de aulas que não foi explorado no texto está relacionado com a credibilidade do computador como ferramenta para experimentação em matemática. Em breve postarei algo explicando melhor essa ideia, que talvez seja explorada em um artigo futuro.



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