Matemática Multimídia e alguns filhos

11 Oct 2017 / Leonardo Barichello

A coleção Matemática Multimídia foi desenvolvida por uma equipe da Unicamp entre 2008 e 2011 da qual tive o prazer de fazer parte.

A coleção oferece mais de 300 objetos educacionais concebidos originalmente para o Ensino Médio (vários deles são compatíveis com Ensino Fundamental e Ensino Superior) em quatro formatos diferentes: áudios, experimentos, softwares e vídeos. Os experimentos são roteiros para atividades envolvendo algum tipo de material manipulativo em que os alunos têm a oportunidade de gerar dados, testar hipóteses e depois utilizar a matemática para formalizar as conclusões. Os vídeos (todos disponíveis no Youtube) têm 10 minutos de duração e variam bastante desde ênfase em aspectos históricos, passando por discussão de problemas e aplicações até a discussão e explicação de conceitos e procedimentos. Os áudios são especialmente variados, mas no geral valorizam aspectos culturais e uma abordagem mais leve da matemática. Finalmente, os softwares infelizmente estão fora de funcionamento por motivos técnicos.

Apesar de já ter mais de 6 anos de vida, a coleção Matemática Multimídia continua sendo utiliza em Licenciaturas de Matemática e por professores e alunos. Por enquanto, contamos apenas com relatos informais de colegas, contatos pessoais e entuasiastas, mas em breve devemos começar a organizar algum tipo de repositório de experiências. Por hora, gostaria de divulgar um vídeo filho da coleção que descobri no Festival de Vídeos Matemática promovido pela Unesp de Rio Claro.

Primeiro, vejamos o objeto que deu origem a este filho, o vídeo Jardim de Números:

Agora, vejamos o vídeo Resolvendo o Jardim de Números, criado por alunos do 3º Ano do Ensino Médio do Colégio SESI, Bandeirantes do Paraná:

Parabéns aos estudantes pelo bom trabalho!

Se você tem mais alguma experiência com objetos educacionais da coleção Matemática Multimídia, comente abaixo!

Ability setting na Inglaterra

29 Aug 2016 / Leonardo Barichello

Quando comecei meu doutorado na Universidade de Nottingham, em 2014, eu não sabia que a maioria das escolas inglesas agrupava os estudantes de acordo com a sua "habilidade" nas turmas de Matemática. Assim como eu não sabia, imagino que vários brasileiros não saibam também. Por isso este post. Nele, vou explicar como essa prática funciona com base em dois artigos e minha experiência em uma escola localizada em Nottingham.

A ideia por trás do ability setting (termo que manterei em inglês para reforçar que me refiro à prática comum na Inglaterra) é a de que agrupar (setting) os estudantes de acordo com notas obtidas em uma prova (supostamente ability) é benéfico para professores e estudantes. Documentos oficiais do ministério da educação e orgãos relacionados reforçam que, dessa forma:

  • os professores podem preparar aulas mais adequadas ao nível de seus estudantes;
  • os estudantes receberão instrução mais adequada ao seu nível de conhecimento.

Essa prática é especialmente comum em matemática e ocorre com mais frequência na escola secundária (dos 11 aos 16). Estimativas conservadores apontam algo em torno de 71% para a porcentagem de estudantes nessa faixa etária agrupados dessa maneira para as aulas de Matemática.

Em teoria, até pode fazer sentido. Porém, os problemas começam a aparecer quando olhamos para o que de fato vem ocorrendo nas escolas. Dunne et al (2011) mostra que. embora professores e coordenadores afirmem que a nota obtida em avaliações anteriores é o único critério utilizado para alocar estudantes:

social class was a significant predictor of set placement, such that pupils from lower socio-economic backgrounds had a higher probability of being placed in lower sets irrespective of prior attainment. Conversely, pupils from higher socio-economic status backgrounds were more likely to be assigned to higher sets and less likely to be assigned to lower sets.

E o mais importante: essa conclusão vale mesmo quando a análise estatística considera a nota obtida em avaliações anteriores.

Em um texto mais recente, Francis et al (2015), baseados em uma longa revisão de literatura sobre o tema, concluem que “the evidence suggests that overall these practices are not of significant benefit to attainment, with a negative impact for lower sets and streams”. Entretanto, mesmo assim, a prática é incentivada pelo govenrno e (segundo pesquisas) apoiada por professores.

Os autores tentam explicar esse aparente conflito (ou incapacidade das pesquisas de influenciar a opinião pública) através de uma análise do discurso inglês acerca de tópicos como educação e inteligência.

Se este post foi suficiente para atrair seu interesse para o tópico, sugiro a leitura da análise feita por Francis et al (2015).

Em conclusão, enquanto alguns países (como a Suécia) proíbem legalmente o ability settings, a INglaterra segue convicta da sua eficácia, mesmo com todas as evidências apontando que a prática não é benéfica. Eu, paricularmente, não me oporia à prática em princípio (acredito que, de fato, os dois benefícios citados no começo deste post podem ocorrer) mas, depois de conhecer a realidade inglesa, levantaria vários "poréns" e ficaria especialmente atento ao efeito discriminatório a que essa prática pode levar.

Referências

Dunne, M., Humphreys, S., Dyson, A., Sebba, J., Gallannaugh, F., & Muijs, D. (2011). The teaching and learning of pupils in low-attainment sets. The Curriculum Journal, 2 (4), 37–41.

Francis, B., Archer, L., Hodgen, J., Pepper, D., Taylor, B., & Travers, M. C. (2015). Exploring the relative lack of impact of research on ‘ability grouping’ in England: a discourse analytic account. Cambridge Journal of Education, 1-17.

Artigo: Towards a experimental problem solving in mathematics using coding

11 Jan 2016 / Leonardo Barichello

Artigo: The movement towards a more experimental approach to problem solving in mathematics using coding (International Journal of Mathematical Education in Science and Technology)

Abstract: motivated by a problem proposed in a coding competition for secondary students, I will show on this paper how coding substantially changed the problem-solving process towards a more experimental approach.

Nesse texto, eu relato a experiência de discussão e resolução de um problema da Olimpíada Brasileira de Informática com um estudante do Ensino Fundamental.

Essa discussão me chamou a atenção pelo fato da nossa (minha e do aluno em questão) abordagem ao problema ter sido fortemente experimental e, eu sugiro, que isso se deveu ao fato de termos à disposição a possibilidade de criar códigos que pudessem testar as nossas hipóteses a medida que as criávamos. Assim, eu sugiro que o uso de programação pode trazer benefícios interessantes para o ensino de Matemática que vão além do desenvolvimento do pensamento computacional per si.



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